A História da Música - Introdução
O Ser Humano possui em sua vida sete "dimensões": Física, Espiritual, Intelectual, Social, Profissional, Afetiva e Familiar. De todas as realizações do Homem, a Arte é a que mais intrinsecamente permeia todas essas dimensões da existência humana. E de todas as Artes, a mais antiga é a Música.
Assim como o percurso da História do Homem, na suas lutas e realizações, se desenvolve na medida de milênios, do mesmo modo a Arte, expressão espontânea, necessidade da humanidade, floresce em tempos igualmente amplos. É uma exigência a tal ponto irresistível que não há momento do viver humano, por mais árduo que possa ser, que não se empenhe na criação artística.
A música é nossa mais antiga forma de expressão, possivelmente até mais antiga que a linguagem. De fato, a música é o Homem, muito mais que as palavras, pois estas são símbolos abstratos. A música toca nossos sentimentos mais profundamente que a maioria das palavras e nos faz responder com todo nosso ser.
Muito antes de o ser humano aprender a pintar, esculpir, escrever ou projetar algo, já sabia a produzir e apreciar os sons. Obviamente esses sons seriam hoje considerados apenas ruídos, mas considerando que "música é a arte de manipular os sons", o que o Homem primitivo produzia era música, ou um "embrião" musical.
O "instrumento" musical mais antigo que existe é a voz humana. Com ela, o homem aprendeu a produzir os mais diversos sons, e a agrupar esses sons, formando as primeiras linhas melódicas. Depois inventou os instrumentos musicais, que se multiplicaram e evoluíram ao longo da História. Muitos destes desapareceram, e a Música mudou muito em todo este tempo. Mas o gosto do ser humano pela música permanece intacto.
Para se estudar a Música, é preciso antes saber o que é música. A música não pode ter nenhuma definição objetiva, pois ela conserva um caráter de abstração, o que a torna algo sem uma definição fechada ou precisa. Ela é uma arte sem corpo físico, ao contrário do que acontece com a pintura, escultura, literatura ou a arquitetura, daí sua abstração. Pode-se dizer que ela não tem um significado, mas o produz em determinados contextos; ou seja, só é possível entendê-la através do vínculo estabelecido entre a música e os contextos (sociais, culturais, físicos) a ela ligados.
A música sempre foi uma parte importante da vida cotidiana e da cultura geral do homem. Hoje vê-se a Música sendo transformada em mero produto pela "Indústria do Entretenimento". Muitas vezes ela se torna um simples ornamento que permite preencher noites vazias com idas a concertos ou shows, organizar festividades públicas, etc. Há um paradoxo, então: as pessoas ouvem, atualmente, muito mais música do que antes, mas esta representa, na prática, bem pouco, e possui, muitas vezes, não mais que uma mera função decorativa.
Mas em todo o Mundo ela ainda mantém vivo seu caráter social, de transmitir sentimentos, de servir de elo com a Divindade, de perpetuar a História, a língua, a cultura e as tradições de cada povo.
A música é mais sublime das Artes, a arte que homens e Anjos compartilham.
Deve ser ensinada como uma língua, e não como mera técnica e prática, sem vida.
No princípio, todas as Artes estavam vinculadas à Arquitetura: Pintura, Escultura, Música, etc... Com o passar do tempo, a Pintura e a Escultura ganharam um status de Artes autônomas. A Pintura saiu das paredes e passou para as telas. A Escultura passou a ter corpo independente das edificações. Mas a Música continuou, e continua ligada à Arquitetura, ao espaço (construído ou não), pois música é acústica, e a acústica depende do meio onde o som é produzido. Uma mesma música tocada em ambientes diferentes nunca soará da mesma forma. Cada instrumento ou estilo musical funciona de maneira ideal em determinados tipos de ambientes arquitetônicos, pois deve ser levado em consideração o volume sonoro e o volume do ambiente, o eco (que pode ser prejudicial ou fundamental), a relação músico/ouvinte, e muitos outros aspectos.
Ao longo da História, a Música esteve tão dependente da Arquitetura, que esta era composta em função da edificação onde ela sempre era executada (a música sacra nas catedrais, a música da corte nos salões dos castelos). Mesmo a música do povo, tocada nas praças e nas ruas, carregavam em sua estrutura a "aura" do espaço adjacente, do estorno construído. O vazio e seu entorno também é arquitetura, pois arquitetura é a "arte de organizar o espaço".
Com a popularização da música, a partir do Século XIX, quando esta ficou cada vez mais acessível a públicos cada vez maiores, é que começou a ocorrer o contrário: a Arquitetura dependente da Música. Foram então projetadas as primeiras salas de concerto, com sua concepção arquitetônica toda voltada para as questões acústicas.
Este é o tema deste presente estudo: pesquisar a História da Música, analisando em todos os aspectos sua relação com a arquitetura, em como estas duas Artes evoluíram juntas, bem como os aspectos sociais, culturais e ideológicos que determinaram cada uma destas duas Artes.
A História da Música - Gênese e Conceitos de Música
Desde os imemoriais tempos primórdios da História (ou até incluindo o que chamamos de "Pré História") o Homem cultiva a arte da Música. Podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que a mais antiga das Artes é a Música, pois antes que o ser humano pudesse pintar, esculpir, escrever ou projetar algo, ele já podia produzir e apreciar os sons. O primeiro instrumento musical foi a própria voz humana.
Sabemos, com base nas Sagradas Escrituras, que a música surgiu primeiramente nas Côrtes Celestiais. Sua função era honrar e louvar a Deus.
Quando Deus criou Adão e Eva, os dotou de musicalidade inata. A primeira experiência musical do casal foi a música dos Anjos. Com certeza essa foi a música mais pura e perfeita já ouvida por nós humanos.
Adão e Eva possivelmente também produziam suas próprias músicas, em louvor ao Criador, e também para seu deleite próprio.
Após a Queda, o Homem já não tinha mais um contato direto com Deus e seus santos Anjos. Mas a música se perpetuou na vida do Homem. Não sabemos exatamente como era essa música, mas é possível que boa parte da pureza e perfeição inicial se perdeu, como tudo neste mundo após o pecado.
Se a Humanidade ante-diluviana era mais o menos homogênea, após o Dilúvio tudo mudou. A grande catástrofe enviado por Deus alterou completamente o relevo da Terra, separou os continentes, mudou o clima, os hábitos alimentares de homens e animais.
Com a confusão das línguas na Torre de Babel, o Homem se espalha pela face da Terra. Passa a habitar regiões desérticas, densas florestas, ilhas soladas no meio de oceanos, etc. E passa a exercer uma grande habilidade natural: a adaptação ao meio ambiente. O isolamento geográfico e a adaptação ao meio vão gerar grandes alterações no ser humano, não apenas no seu estilo de vida, mas em sua biologia. Foi assim que surgiram e se desenvolveram as etnias humanas, classificadas em caucasiana, negróide, australóide, mongolóide, etc. Ou seja, os brancos, os negros, os amarelos (orientais), os vermelhos, etc.
Essa grande variedade de meios vai gerar uma grande variedade de estilos de vida, de etnias e de graus de desenvolvimento. Enquanto alguns povos se desenvolvem enormemente, chegando ao estágio de grandes civilizações, com grande desenvolvimento tecnológico, com sistema político-social avançado, com o domínio da Arte (música, pintura, escultura, literatura, arquitetura) e da Ciência (matemática, física, medicina); outros estacionam (ou até regridem, no espaço de poucas gerações) num estágio de desenvolvimento bastante primitivo.
Povos que um dia foram capazes de construir embarcações capazes de levar famílias através de milhares de quilômetros mar adentro, séculos (ou até milênios) depois foram encontradas isoladas em ilhas, incapazes de construir algo além de rudimentares canoas de pesca. E foram encontrados por homens munidos de avançadas embarcações de metal, movidos a propulsão mecânica (a vapor), nos séculos XIX; e a óleo combustível, no século XX.
Em plena era moderna, ainda havia (e ainda há) seres humanos vivendo de um modo primitivo; "como na pré-história", disseram alguns pesquisadores.
Neste trabalho a ênfase é dada ao Ocidente, em especial à Europa. É usual começarmos pelo período da Antiguidade Clássica, das civilizações greco-romanas. Neste período já havia um grande "abismo" entre os povos.
Enquanto os gregos e romanos eram muito desenvolvidos, moravam em grandes cidades com construções avançadas de pedra e alvenaria, com ruas calçadas, aquedutos, instrumentos musicais como órgão de tubo, harpas, liras, flautas, trombetas de metal, etc; havia as tribos chamadas de "bárbaras". Esses povos bárbaros ainda viviam em sociedades tribais, se vestiam com peles, viviam da caça e da agricultura de subsistência, moravam e cabanas primitivas.
E antes desses existiram na Europa povos mais primitivos ainda, como evidenciam os achados arqueológicos, como as pinturas rupestres nas cavernas, os artefatos de ossos, pedra lascada, etc.
No mundo todo se encontrou vestígios da presença de povos primitivos. E ainda hoje há povos de modo de vida semelhante, como os ianomâmis, os aborígines australianos (que ainda habitam em cavernas, no deserto australiano), os povos antropófagos da África, da Oceania e da Ásia. Eles ainda andam nus, (ou se vestem com peles ou folhas), fazem fogo com paus e pedras, caçam com armas rudimentares, apenas coletam o que a natureza oferece, não possuem qualquer forma de escrita, sua língua é simples e com um vocabulário limitado. Esse modo de vida permaneceu inalterado por centenas e milhares de anos, devido ao isolamento destes povos. Como não possuem escrita ou meios de registrar sua história, eles contam sagas de geração a geração, através de lendas.
Se verificou que possuem uma relação de interdependência muito forte com a natureza, a ponto desta ser deificada por eles. É observando os animais que eles aprendem muita coisa.
Em suas andanças pela Natureza, esse homem primitivo se deleitava com os melodiosos gorjeios dos pássaros, com a variada gama de sons (grunhidos, relinches, urros, rugidos, uivos, latidos, miados, mugidos...) produzidos pelos mais diversos animais. Podia apreciar também o "assobio" do vento, o "tamborilar" da chuva, o "sussurro" do riacho, o "crepitar" da fogueira, entre outros.
O homem também podia produzir (e reproduzir) muitos sons, de intensidade, alturas, timbres e "texturas" diferentes. Com o arranjo desses elementos, criou suas próprias linhas melódicas vocais. Essa habilidade foi desenvolvida ao longo do processo de desenvolvimento da comunicação (não confundir com desenvolvimento da fala). O modo de comunicação primitivo foi o tronco comum do qual, no campo sonoro, se destacaram dois ramos distintos: a linguagem verbal e a música. ( SCHURMANN, 1985)
É importante observar que, dentro do âmbito da música, muitas articulações sonoras se desvincularam da sua original função comunicativa, para funcionar como instrumentos de trabalhos mágicos e religiosos. A função mágica, sendo mais antiga que a religiosa, provavelmente dominava não apenas as manifestações musicais, mas também as pinturas rupestres das paredes das cavernas.
Segundo SCHURMANN, essas representações, quase exclusivamente de animais, caracterizam-se por um naturalismo surpreendente e, pelo que tudo indica, serviam a uma prática de magia.
Cria o Homem primitivo que a produção da imagem de um animal contribuiria diretamente para a aquisição de poder sobre o mesmo. É muito provável que a música tenha sido tão naturalista quanto a pintura, e que imitando o relinchar de um cavalo, o homem julgasse apossar-se não apenas do relinchar, mas também do próprio cavalo.
A íntima relação entre a música e a religião na sociedade humana é reconhecida como um fenômeno universal. A música é uma das únicas comuns a todas as culturas. Em todo o mundo a música está relacionada à religião; na maioria das culturas, a música acompanha ou é veículo para a adoração.
Nas práticas religiosas, a música era a linguagem mágica do Homem primitivo na sua invocação aos deuses, aos espíritos e as forças da Natureza, através de uma melodia cantada. Pode ser usada tanto para expressar gratidão como para acalmar uma divindade enraivecida, até o ponto de exercer uma influência mágica e controladora sobre a mesma. Servia para elevar a consciência humana ao místico, ao mítico, ao cósmico, ao sobrenatural. (STEFANI, 2002)
Essas melodias cantadas também assumiriam um importante papel na prática de contar estórias. Era por meio de tais estórias que se mantinham vivos os valores éticos indispensáveis para a estrutura social da época, e se louvavam a memória de deuses e heróis, narrando façanhas notáveis e enaltecendo a bravura, a lealdade, o espírito aventureiro e a coragem. Com o desenvolvimento dessas canções/poemas, a música se afasta de sua função produtiva, e toma um caráter mais artístico, lúdico, de integração social. (SCHURMANN, 1985)
Ao longo de suas atividades diárias, o Homem descobriu também que, ao bater paus, pedras (e posteriormente metais) uns nos outros, podia produzir sons. Verificou que materiais diferentes, de rigidez e tamanhos variados produziam sons variados na mesma medida, muitas vezes nas mesmas tonalidades que ele produzia com sua voz. Sugiram assim os instrumentos de percussão.
O Homem também percebeu que ao soprar em sua zarabatana de caça, se produzia um som característico, como um assobio, e que zarabatanas de comprimentos e diâmetros diferentes produziam sons de alturas diferentes. Ao puxar e fazer vibrar a corda de seu arco de flecha, também se produzia um som. Da manipulação destas propriedades sugiram então os primeiros instrumentos de sopro e os de cordas. Muitos outros instrumentos musicais surgiram e evoluíram ao longo da História, outros desapareceram sem que hoje tenhamos contato com eles. Mas o gosto do ser humano pela música permanece inalterado.
De toda essa riqueza musical da Antigüidade, apenas se tem uma vaga idéia, através da música dos povos primitivos que ainda se encontram na Terra. Mas a noção exata de como esta seria se baseia em pura especulação. Assim como a Pré História só passou a ser chamada de História a partir da invenção da escrita, a música desse período se perdeu devido à falta de uma escrita musical. A notação musical só foi desenvolvida no século IX, por um monge, e se desenvolveu até a que se conhece e se usa hoje na escrita de músicas na forma de partituras.
Obviamente, quando se fala sobre a música "pré-histórica", não se pode julgar a partir de um conceito atual de música. Este conceito mudou bastante com o passar das eras. O conceito clássico diz que "música é a arte de combinar os sons de maneira agradável aos nossos ouvidos". O conceito Romântico diz que "música é a arte de manifestar os diversos afetos de nossa alma mediante os sons".
Neste século, com o fim de um único estilo dominante, onde a cada dia nascem dezenas de novos estilos musicais, dizemos apenas que "música é a arte de combinar sons e silêncio", conceito que se aproxima muito do que era a música para o Homem primitivo. A música mais moderna e tecnológica, a chamada música eletrônica, é predominantemente percutida e dançante, tal qual uma música tribal.
A música tem o poder de despertar as mais variadas sensações em seus ouvintes. Pode servir de estímulo; por isso muitas vezes uma pessoa ouve uma canção e se sente sintonizada com ela e consigo mesma, e se sente melhor e consegue trabalhar melhor. Pode servir como ativadora da memória, nos fazendo lembrar de eventos passados, tristes ou felizes; pode nos associar a pessoas, eventos, lugares, datas especiais. Pode relaxar, excitar, alegrar, deprimir.
A música funciona como estímulo a comportamentos em diversos casos. Depende do caráter da música, mas o ambiente, o estado de ânimo e a vontade, o gosto pessoal e o conhecimento musical também influenciam muito. Os sons são muito ambíguos. O som estridente de uma guitarra excita quem aprecia músicas no estilo "Heavy Metal", mas pode aborrecer algumas pessoas. O som suave de um piano enternece o apreciador de música erudita, mas pode incomodar outros que não apreciam tal música. O mesmo vale para qualquer instrumento ou estilo musical. E mesmo para pessoas que apreciam estilos variados, uma determinada música pode lhe agradar ou desagradar, dependendo da ocasião, lugar, hora do dia, estado emocional, etc.
Num filme, por exemplo, a música não é apenas um fundo; ela acompanha, comenta, descreve e reforça as diferentes situações. É difícil de nos lembrarmos da trilha sonora de um filme quando acabamos de assisti-lo, mas com certeza nos lembraremos das cenas mais marcantes. E estas cenas são marcantes graças ao reforço da trilha sonora. Uma cena romântica nunca desperta a mesma emoção sem uma linda melodia a acompanhá-la. Uma cena de ação não produz a mesma adrenalina sem uma música poderosa de fundo. Uma cena de suspense ou terror não provocará tanto medo sem uma lúgubre e aterradora trilha sonora. Diversos estudos foram realizados neste sentido. Diversas pessoas assistiram cenas de romance, ação, comédia, suspense e terror, primeiramente com as trilhas originais, depois com as trilhas trocadas, e por último sem som algum. As sensações despertadas foram as mais diversas possíveis.
Ao contrário, num concerto de música erudita, as pessoas assumem uma postura de escuta direta e imediata, concentrada exclusivamente na música. A música não serve para algo, ela é um fim em si mesma.
A música tem diversos níveis de sentido. Os sons são pensados pela mente como qualquer outra realidade: simples ou complexa, contínua ou descontínua, repetida, variada, etc. Estes são os primeiros significados. A música pode ser sentida em vários sentidos: códigos gerais de percepção, práticas sociais, técnicas musicais, estilo, obra, etc. Mas isso não só quando escutamos concentradamente, mas também quando cantamos, tocamos, jogamos, dançamos, estudamos música. Somos capazes, com os sons, de produzir sensações em diversos níveis.
Quando tentamos definir a música, podemos simplesmente dizer que é uma seqüência de sons, de tons de altura definida, organizados melódica, harmônica e ritmicamente, e de acordo com o timbre. Muitos dizem que música é uma ciência exata, definida pela matemática e pela física.
A música é a arte que tem a maior possibilidade de se libertar de toda expressão de um determinado conteúdo, para se contentar com uma simples sucessão de justaposições, modulações, contrastes e harmonia, e assim se encerrar nos limites do domínio puramente musical dos sons. Mas, nestas condições, a música permanece vazia e sem significado, e visto que lhe falta um dos principais elementos de qualquer arte, o conteúdo e expressão, não pode ser então colocada entre as artes propriamente ditas. Mas quando o elemento sensível dos sons serve para exprimir o espiritual de uma maneira mais adequada, a música se eleva ao nível de uma verdadeira Arte.
Há música desde que o som se organize no tempo; mas que sons pode-se considerar música? É aqui que começa o arbitrário. Todos que produzem som fazem música: pássaros, animais, homens de todas as etnias, o vento, o mar. Mas não com os mesmos sons. Cada povo possui uma maneira de fazer e escutar música. Isso acompanha a formação, a cultura e a própria história de cada povo. Através da música uma sociedade expressa sentimentos de maneiras características, por isso cada cultura possui uma forma de expressá-los. A arte tem sido repetidamente definida por estudiosos do ocidente e do oriente como uma expressão sensorial da cosmovisão de um povo ou de uma cultura.
Pessoas numa sociedade estruturada de maneira única desenvolvem uma música igualmente única. Deve ser a estrutura social que forma o estilo musical. A música não é uma linguagem que descreve como uma sociedade parece ser, mas uma expressão metafórica de sentimentos associados com a maneira que a sociedade realmente é. Porque as pessoas criam a música, elas reproduzem na estrutura básica de sua música a estrutura básica de seus próprios processos de pensamento. (STEFANI, 2002)
Merriam, um antropólogo cultural, caracteriza a música através da seguinte definição: "O som musical é o resultado de processos comportamentais humanos que são modelados pelos valores, atitudes e crenças das pessoas que compartilham uma determinada cultura. O som musical não pode ser produzido exceto por pessoas para outras pessoas, e embora possamos separar os dois aspectos (o aspecto sonoro e o aspecto cultural) conceitualmente, um não está realmente completo sem o outro. O comportamento humano produz música, mas o processo é contínuo; o comportamento é amoldado para produzir som musical, e assim, o estudo de um converge para o outro".
Conclui-se com isso que em qualquer tempo ou lugar, a música será sempre uma arte extremamente rica e difundida, apesar de carregar esse caráter de abstração em seu próprio conceito. Entender o que a música é ou representa é tão importante quanto ouvi-la, e não faz com que a escuta se torne insignificante, mas atenciosa, e ajuda a fazer a música passar pelo exercício essencial de contextualização, o que distancia todo o mal gerado pela ignorância.
Aqui estamos estudando a evolução da música, primordialmente a música ocidental, ao longo da História. Aparentemente esta intensa mutabilidade é um fenômeno tipicamente ocidental. Nas culturas orientais, predominantemente pagãs, a música tem se preservado a mesma por milênios. Nestas culturas, devido à crença de que os ancestrais se juntavam em rituais de adoração comuns, era fundamental que a música e as danças se mantivessem tão antigas quanto possível para que fossem compreendidas por todos os ancestrais e facilitasse sua participação. Uma das funções da música também era revelar a imutável essência eterna do universo. Então, seria natural que, uma vez criada, tal música resistiria às mudanças com o passar do tempo. Mesmo uma religião estritamente monoteísta, como o islamismo, também preserva diligentemente uma forma própria de expressão musical. Por que então a música ocidental mudou tanto?
Uma organização religiosa (ou mesmo política) incute uma ideologia, um conjunto de valores e, talvez, cria uma ação ritual tal como uma liturgia ou uma atitude em relação a um modo de vida como parte de sua filosofia. Embora nada específico seja dito ou escrito sobre as artes, há um estímulo natural em descobrir a expressão artística implícita, adequada a essa ideologia.
Mas os valores que os homens dos séculos passados respeitavam não parecem, hoje, importantes. Essa modificação radical da significação da música se processou nos últimos dois séculos com uma rapidez crescente. E ela se fez acompanhar de uma mudança de atitude frente à música contemporânea, aliás, frente à arte em geral, porque, como a música era parte essencial da vida, ela tinha que nascer necessariamente do presente. Ela era a língua indizível do homem, e só os contemporâneos poderiam entendê-la. Devia ser sempre criada com o novo, da mesma forma que os homens deviam construir para si novas moradas que correspondessem a um novo modo de existência, a uma nova modalidade de vida espiritual. Da mesma forma, já não era capaz de compreender, nem de utilizar a música das gerações passadas.
Por que então buscar saber da música antiga? Porque a música sofreu milhares de transformações que a distanciam de seu ouvinte contemporâneo. Por isso surgiu a canção, que é uma tentativa de "humanizar" o som, tornando-o mais compreensível. A música tem de ser antes de tudo bela. Muitos ainda não estão preparados para o experimentalismo da música contemporânea. Por isso buscam na música antiga a beleza e a harmonia tão almejadas.
Mas a música simplesmente bela jamais existiu; pois beleza é um conceito subjetivo e abstrato; é um componente de toda e qualquer música, mas não pode ser o critério determinante, pois isso significa ignorar os outros componentes. Se reduzirmos a música ao belo, tornando -a apenas um componente agradável da vida cotidiana, fica impossível compreender-mos a música em sua totalidade.
Quanto mais as pessoas se esforçarem para aprender a música antiga, mais perceberão que ela ultrapassa a beleza e o quanto ela inquieta, pela diversidade e riqueza de linguagem; e só assim reencontrarão a música contemporânea, aquela que constitui a cultura de hoje, e a prolonga.
Ao passarmos pelas etapas cronológicas da História da Música, estaremos abordando os períodos artísticos, e os estilos característicos de cada período.
O estilo tem sido descrito de diversas formas: "um modo característico de fazer algo", uma "generalização do particular", ou "um modo de vida". O estilo é usado como produto ou método da ação e da escolha humana. É uma réplica do modelo, um conjunto particular de características. (STEFANI, 2002)
Inúmeros fatores determinam o estilo musical em sua relação tempo-espaço, ou seja, de acordo com o lugar e a época, conforme veremos nos capítulos a seguir.
A História da Música - Antigüidade
A História da Antigüidade ocidental começa, geralmente, pelo período greco-romano, também conhecido como Antigüidade Clássica.
No desenvolvimento artístico de diversas civilizações, é quase sempre possível vislumbrar um momento, de maior ou menor duração, que se costuma denominar "clássico". É a culminância, freqüentemente luminosa, de perfeição formal e integração espiritual.
Nenhuma civilização e nenhum país deu, todavia, a este conceito de clássico, uma contribuição tão decisiva e essencial que aquela dada Grécia, num período relativamente breve, que abarcou, mais ou menos, os séculos V e IV a.C.
O classicismo grego revela, pela primeira vez, uma manifestação artística que se afirma e se difunde unicamente pelo efeito da sua qualidade intrínseca, ou seja, pela eficácia e evidência de seus valores formais e expressivos. É uma arte de exaltação da importância do homem como tal, considerado "a medida de todas as coisas". Essa arte exprime, portanto, aqueles valores de equilíbrio, harmonia, ordem, proporção e medida, que pertencem à razão humana. É uma arte que, em sua quase totalidade, tem uma destinação pública e religiosa.
Se a individualização dos valores do classicismo grego se reveste de tanta importância, nem por isso sua pesquisa se torna fácil. A arquitetura não tem sequer um monumento íntegro. Todos estão em estado de ruínas, por vezes, de ruína arqueológica que permite reconstruir, idealmente, mas não ver, uma estrutura arquitetônica perdida. (PISCHEL, 1966)
Neste período, a arquitetura assistiu ao nascimento do templo grego. Trata-se da transformação em sentido estrutural e monumental daqueles edifícios mais rudimentares, erigidos anteriormente para dar uma "casa" elementar à divindade.
Inicialmente de madeira, desenvolve-se até chegar aos templos de mármore, solidamente construídos sobre uma plataforma com degraus. De planta retangular, com desenvolvimento predominantemente horizontal, e com cálculo de dimensões e proporções, de modo a contrapor à desordem da natureza a geométrica racionalidade da vontade arquitetônica.
A arquitetura grega é essencialmente monumental. Assim, o templo grego é um espaço mais externo que interno. Seu edifício interno não é feito para acolher e conter grandes massas de fiéis. É um lugar concebido como moradia de um determinado deus, onde é colocada sua estátua. Para os fiéis, o templo é erguido a fim de ser contemplado no seu conjunto, para que subam até ele levando sacrifícios e homenagens; não, porém, para ficarem lá dentro. (PISCHEL, 1966)
Sendo assim, a maior parte das manifestações musicais se davam em lugares abertos, de menores recursos acústicos, como o Agora, a praça do mercado e dos principais edifícios públicos, e a Acropolis, a "cidade alta", o topo da colina onde ficavam os templos. Os espaços onde a música era executada contando com mais recursos acústicos eram os anfiteatros. Estes eram construídos em encostas, assim dispondo sua arquibancada em um semicírculo íngreme, que amplificava as vozes dos atores, cantores e músicos.
A palavra música vem do grego "mousiki", que significa "a ciência de compor melodias". Há uma lenda mitológica que diz que a música ocidental começou com a morte dos deuses conhecidos como Titãs. Depois da derrota destes deuses, foi solicitado a Zeus que se criasse divindades capazes de cantar as vitórias dos Olímpicos. Há também, na mitologia, outros deuses ligados à história da música, como Museu, que quando tocava chegava a curar doenças; Orfeu, que era cantor, músico e poeta; Anfião, que depois de ganhar uma lira de Hermes, passou a se dedicar inteiramente à música.
Assim como da arquitetura grega clássica só nos restam ruínas, da produção musical grega só nos restaram raros fragmentos, em alguns papiros e em capitéis de colunas de mármore. Mas, se de músicas propriamente ditas não temos quase nada, o mesmo não se pode dizer da teoria musical. Inúmeros tratados sobre música escritos em grego, e cópias em árabe e latim, sobreviveram.
Uma das primeiras explicações formais sobre a natureza da arte musical reveste-se de caráter fantástico: é a idéia pitagórica segundo a qual o universo se constituiria de sete esferas cristalinas que emitem em seu movimento concêntrico as respectivas notas da escala musical em perfeita harmonia.
A teoria musical tem como objetivo a elaboração de um conjunto de disciplinas e interpretações gerais sobre os elementos e estruturas musicais. Pitágoras foi quem desenvolveu matematicamente os intervalos entre as notas musicais, demonstrando as proporções numéricas das escalas musicas.
Os gregos utilizavam duas formas primitivas de notação musical: uma instrumental, composta de quinze símbolos distintos, possivelmente derivados de algum alfabeto arcaico; e um vocal, baseado nas 24 letras do alfabeto jônico. A notação com letras e todos os padrões harmônicos, escalas e outros aspectos musicais influenciaram toda a produção musical do Ocidente (de do Oriente Médio) até o fim do sistema modal, no século XVII.
Uns dos maiores legados da cultura grega é sua literatura. A literatura grega é a mais antiga da Europa, e desde suas origens está associada à música, ao teatro e também à dança. Do Período Helenístico em diante, entretanto, estabeleceu-se uma certa independência entre a música e a literatura.
Poesia Épica: poesias que narravam feitos heróicos, geralmente se baseavam em fatos históricos, misturados a lendas e personagens mitológicos. Composições deste tipo, em versos, foram criadas antes da invenção da escrita e conservadas graças à memória de incontáveis gerações de poetas-cantores, os aedos. É bom esclarecer que a poesia grega não era parecida com o que hoje conhecemos por "poesia". Não havia rimas, e sim uma estruturação do verso em sílabas longas e curtas, de tal modo que a declamação adquiria um ritmo e uma musicalidade muito própria à língua grega. E os versos eram sempre acompanhados de música.
Poesia Lírica: durante o período Arcaico, época de grande efervescência cultural, a poesia, a música e a dança tornaram-se ainda mais estreitamente ligadas, mas a temática já era outra. Os poetas praticamente abandonaram os longos temas épicos e heróicos, e preferiram criar obras mais curtas, pessoais e emotivas. Era muito apreciada, também, poesias compostas para ocasiões cívicas, como festivais religiosos e disputas esportivas. O qualitativo lírica, usado até hoje, refere-se ao fato de estes poemas terem sidos usualmente apresentados com o acompanhamento da lira. Usava-se muito também a palavra ode, que significa simplesmente canto, em relação a qualquer forma de poesia lírica. Havia a "lírica monódica", em que o poeta declamava sua poesia, e a "lírica coral", em que a composição era apresentada por um coro.
Tragédia e comédia: a tragédia evoluiu, aparentemente, a partir dos ditirambos, cantos corais apresentados nos festivais em honra ao deus Dionísio. Em algum momento do VI a.C. um dos componentes do coro passou a declamar, numa espécie de conversa com o restante do coro, e quando um segundo membro passou a dialogar com o primeiro, e ambos com o coro, surgiu a ação dramática, cerne da tragédia grega. As tragédias florescera na Atenas do século V a.C., após as guerras greco-pérsicas. Eram apresentadas nos concursos dramáticos dos festivais da cidade: as Lenéias (janeiro), as Dionísias Urbanas (março e abril), e as Dionísias Rurais (dezembro). As apresentações aconteciam em teatros semicirculares, e dois ou três atores masculinos com máscaras faziam todos os papéis principais. O tamanho do coro, que cantava, dançava e dialogava com os atores durante a peça, variou conforme a época. A comédia também se originou nas festas populares em honra ao deus Dionísio. Na ocasião, os camponeses dos cortejos se apresentavam bêbados de vinho, e diziam impropérios e palavrões em voz alta, para atrair boas colheitas. Em Atenas os concursos de comédias começaram mais tarde que os de tragédia, por volta do ano 486 a.C. Os coros usavam em geral roupas que lembravam animais, e os atores tentavam despertar o riso com barrigas e falos postiços. Eram também usuais os trocadilhos, paródias e cenas burlescas de vários tipos.
Os gregos tinham uma idéia antropocêntrica da vida, e mesmo seus deuses eram humanamente concebidos de uma forma infalível. Mas, talvez sua idealização das características humanas tenha contribuído para o desenvolvimento de dos famosos arquétipos dionisiano e apoloniano. Os gregos da Antigüidade viram uma ligação entre estilos de expressão musical e impulsos contrastantes da vida incorporados na distinção dionisiana/apoloniana.
Havia assim uma música cujo efeito era de tranqüilidade e elevação e a música que tinha como objetivo produzir agitação e entusiasmo. A primeira estava associada com a adoração de Apolo, celebrado em tranqüilidade e ordem; o instrumento usado era a lira e suas formas poéticas a ode e o épico. A segunda estava associada com a adoração de Dionísio, celebrado com vinho e embriaguez; o instrumento era o aulos e suas formas poéticas o dithyramb e o drama. A música era usada para incitar paixões e até mesmo promover o hedonismo. (STEFANI,2002)
O último momento da arte grega é o período helenístico. Inicia-se antes do fim do século IV a.C., mas é difícil indicar o ponto final desse momento. Do ponto de vista artístico, o período não se fecha com a conquista política da Grécia por Roma; aliás, essa conquista conduz à admiração dos romanos para a cultura e arte grega, bem como a transferência, para Roma, de mestres e artesãos gregos. Assim ocorrem as infiltrações helenísticas na arte romana. (PISCHEL, 1966)
Não é paradoxo afirmar que a maior construção dos romanos foi seu Estado. Através dos diversos regimes da monarquia, da república e do império, passa de modesta liga de povos rurais, para a força que unificou toda a Itália, até tornar-se a potência que dominou todo o Mediterrâneo, depois conquistando a Europa, a Ásia e a África. Nesse território Roma instaurará – a todos fazendo cidadãos romanos – a sua civilização, fundada sobre o critério do Direito e sobre singulares inter-relações da autoridade e democracia.
Não admira, pois, que tal mundo revela em todos os setores, e também na arte, um cunho praticista. Estradas pavimentadas para o exército; pontes sólidas de alvenaria; aquedutos em arcos, que de longe transporta água para as cidades. Tudo isso faz parte da precoce arquitetura romana. Seu próprio teor monumental, procurando a grandiosidade como símbolo de potência e se orientando mais pela solidez imponente do que para a elegância e graça, será caracterizada pela preocupação relativa às exigências das grandes massas populares: foros, termas, teatros, circos.
Para o estudo da arte romana e importante identificar as diversas contribuições proporcionadas pelas civilizações pré-romanas. O território itálico, saindo da Idade do Bronze, não experimentou unidade política, e portanto, não expressou unidade artística. A característica de sua produção de arte pode ser reconhecida pelas diferenças de níveis qualitativos e pela variedade de manifestações. As principais influências foram primeiramente os etruscos, e posteriormente os gregos.
Quando no século VIII a.C., Roma inicia sua vida histórica, adota em sua forma urbana a solução etrusca de cidade murada, com portas de acesso, ruas em retícula e casa de planta elíptica. Num período republicano mais avançado, Roma passa, na construção de seus templos, das receitas etruscas aos módulos gregos. A própria Roma se refaz, então, com exemplos urbanos helênicos, abrindo pórticos nas alas laterais de suas praças, e edifícios monumentais.
Com a expansão da civilização romana no período imperial, Roma se torna hiper-populosa. Para seus governantes, deve representar o mais vasto império do mundo, deve tornar-se o centro esplêndido de semelhante domínio. Aqui se exprimiria o melhor da cultura; aqui a arte será entendida como recurso de exaltação a potência do Império. As grandes soluções urbanísticas e as grandes construções darão, entre outras coisas, trabalho a grandes massas de proletários.
Utilizando as ordens arquitetônicas gregas de maneira mais livre, a arquitetura romana se enche aos poucos de originalidade. Prédios curvos e dinâmicos, em oposição à solução retilínea e estática da arquitetura grega. (PISCHEL, 1966)
Musicalmente, ocorreu o mesmo que com as demais artes romanas. A música grega foi incorporada, somada às influências de outros povos dominados pelo império romano. Estava principalmente ligada aos eventos públicos, como reuniões e festividades religiosas; eventos esportivos e lutas de gladiadores; eventos cívicos, militares e festividades dos imperadores em seus palácios; acompanhamento para teatros, dança e poesia.
A grande arrancada artística se dá na renovação monumental de Roma, após o incêndio de Nero, no primeiro século da Era Cristã. A obra arquitetônica mais conhecida da época é o Coliseu. Nenhuma outra obra desta época alcança, em Roma, tamanho equilíbrio estético.
No século II, a arquitetura nos revela domínio do espaço real em construções isoladas, e domínio da ficção espacial na relação entre forma arquitetônica e espaço urbano.
O século III reflete, em todas as soluções artísticas romanas a ânsia de manifestações destinadas a surpreender por sua magnificência.
Quando irrompe o Cristianismo, no século IV, Roma já concluíra sua parábola artística.(PISCHEL, 1966)
A História da Música - Românico
Por volta do século IX, livres da opressão do Império Romano, os povos europeus começam a desenvolver suas próprias manifestações culturais, como língua, Música, Arquitetura e outras Artes. Como período artístico que sucedeu o do Império Romano, foi denominado de Românico, que marca o início da Idade Média, na Europa feudal.
No período do fim do Império Romano, a Europa estava arrasada após séculos de dominação romana e de ataques de povos bárbaros. As cidades, outrora grandes, se reduziram a feudos murados e pequenas vilas rurais. A única instituição que perdurou do período imperial foi a Igreja Católica Apostólica Romana, que dominava todo o Continente com seu poder religioso, e em muitas regiões com um poder quase temporal. Onde o poder temporal era exercido pelo senhor feudal, que dominava a classe social dos servos, o clero tinha a função de legitimar o poder da nobreza, garantir a autoridade das classes dominantes e justificar as relações feudais como necessárias e imutáveis.
Com sede em Roma, seus "tentáculos" nos demais países eram os Mosteiros e Conventos das ordens monásticas. Essas construções se destacavam por sua monumentalidade, onde predominava a horizontalidade, sólidas e pesadas paredes de pedra, com poucas aberturas para a entrada de luz natural. Tanto seu interior quanto exterior estavam quase ou nada dotados de ornamentos. Essa austeridade tinha a função social de pregar o desapego às coisas materiais, e a busca das coisas espirituais. (RAMALHO, 1992)
O surgimento do monasticismo, com sua rejeição ascética do mundo físico, confirmou a orientação transcendental no pensamento cristão até o ascetismo tornar-se o ideal da vida cristã. À medida que as comunidades monásticas emergiam como os centros de aprendizagem e fornecedores da cultura cristã, sua concepção do que era santo veio a ser comparado com o que era bonito e bom. Com o desenvolvimento do sacerdotalismo e do sacramentalismo, a participação congregacional na adoração foi minimizada, Deus foi distanciado da experiência direta dos adoradores. (STEFANI, 2002)
As poucas aberturas dessas construções direcionavam a luz para o altar, onde se encontrava o clero e os objetos litúrgicos, ficando a congregação na penumbra. Isso passava a idéia de santidade dos representantes de Deus aqui na Terra, e a condição de trevas espirituais da população leiga. O peso de sua massa construtiva ao mesmo tempo passava a sensação de opressão e de proteção, como que dizendo que é a Igreja que domina, mas diferentemente da dominação do senhor feudal, apenas ela pode salvar a alma.
As pessoas que entravam nas catedrais deixavam para trás sua vida de preocupações materiais e pareciam adentrar em um mundo diferente. Mas era um mundo misterioso, que inspirava temor, onde a esperança de salvação misturava-se ao medo da morte e do julgamento; e nas comunidades simples o foco principal estava no medo.
A teologia românica concentrava-se em Deus como uma figura de autoridade - soberano, ditador da lei e juiz. As criações estéticas derivadas dessa ideologia certamente inspiravam mistério, temor e reverência, e às vezes intimidação (STEFANI, 2002)
Nestas "fortalezas" sagradas os religiosos se refugiavam dos males deste mundo. Suas atividades diárias consistiam de orações, meditações, leituras da Bíblia (copiadas a mão por eles mesmos) e de cânticos. A fonte musical destes cânticos era os cânticos judaicos (Salmos) e a música grega, preservada pela Roma Antiga.
Inicialmente herdado da sinagoga judaica, o estilo de música sacra cristã primitiva foi conscientemente cultivado durante séculos sucessivos para refinar essas características próprias de uma orientação transcendente. Ambas músicas, da sinagoga judaica e a música cristã primitiva, exibiram o mesmo canto bíblico intencionalmente restrito, mas certos pontos secundários de diferença existiram, particularmente relativos à expressão do sentimento humano. Enquanto o canto judaico era um canto humano, imperfeito, o louvor cristão buscava aproximar-se da beleza pura e perfeita de um coro de anjos.
Após o Papa Gregório I ter unificado a liturgia do culto nas igrejas, no século VI, a música passou a ter uma grande importância nos ritos sacros, denominada de Canto Gregoriano. A música litúrgica foi o padrão para a cultura musical durante o período medieval. A música da Igreja claramente liderou a hierarquia musical aceitável na sociedade, determ




Seg 15 Set 2008 17:31